Dentista vende coleção de clássicos

Uma banda com duas faces
Poucas empresas influenciaram o setor de pneus de automóveis tão profundamente quanto a Michelin. Fundada em 1889 pelos irmãos Édouard e André Michelin em Clermont-Ferrand, a empresa é responsável por algumas das inovações mais revolucionárias na história dos pneus: o pneu pneumático removível em 1891, o primeiro pneu radial em 1946 e — menos conhecido, mas igualmente importante — o primeiro pneu assimétrico do mundo em 1965.
Essa inovação mais recente chama-se Michelin XAS. E qualquer pessoa que compre um carro esportivo hoje com um Pilot Sport, Pirelli P Zero ou Bridgestone Potenza está dirigindo um carro seguindo um princípio que foi concebido pela primeira vez em um laboratório francês há sessenta anos.
O problema que o XAS teve que resolver
Em meados da década de 1960, os carros esportivos ficaram mais rápidos, as curvas mais fechadas e os limites de velocidade nas rodovias mais altos. Um pneu simétrico convencional — que parece idêntico em ambos os lados e pode ser montado em qualquer direção — não conseguia mais acompanhar o ritmo. Era um meio-termo: razoavelmente bom em tudo, excelente em nada.
O problema fundamental é que a parte interna e a externa de um pneu são expostas a condições completamente diferentes durante a condução. A parte interna do pneu precisa drenar a água. A parte externa precisa proporcionar aderência nas curvas e estabilidade em piso seco. Mas se a banda de rodagem for idêntica em ambos os lados, ela só poderá desempenhar uma função de forma otimizada por vez. O resto é um compromisso.
A Michelin chegou à conclusão lógica: se as condições em ambos os lados do pneu são diferentes, os sulcos também devem ser.
A solução: uma banda, duas tarefas
O Michelin XAS introduziu um padrão de piso com uma distinção clara entre o interior e o exterior — o nome na lateral indica como o pneu deve ser montado, uma inovação absoluta na tecnologia de pneus.
A parte externa do pneu apresenta blocos de piso menores e mais rígidos que criam uma área de contato maior com a estrada. Resultado: mais aderência em curvas em piso seco e menos ruído em rodovias. A parte interna possui cavidades maiores e sulcos mais profundos que drenam a água rapidamente da área de contato. Resultado: melhor resistência à aquaplanagem em piso molhado.
Duas metades. Duas tarefas. Uma banda. Parece simples — mas ninguém tinha pensado nisso antes.
Os carros que fizeram do XAS um grande sucesso.
Um pneu revolucionário precisa de carros revolucionários para provar seu valor. O Michelin XAS conseguiu isso. Na década de 1960, o Porsche 911, 912 e 914 vinham de série com o XAS — uma escolha feita deliberadamente pela Porsche porque nenhum outro pneu conseguia lidar tão bem com a dinâmica de condução do 911 com motor traseiro. O Citroën DS — o carro que tornou o não convencional algo desejável — também utilizava o XAS.
Lancia, Austin-Healey, Lotus, Aston Martin, Peugeot, Alfa Romeo e Renault seguiram-se. O XAS recebeu um índice de velocidade V, capaz de atingir velocidades máximas de até 240 km/h — uma conquista impressionante para uma categoria de pneus de produção em 1965.

A herança
O próprio XAS já saiu de produção há muito tempo. Mas seu princípio está em toda parte. Praticamente todos os pneus de alto desempenho modernos — do Michelin Pilot Sport Cup 2 ao Pirelli Trofeo R — usam o padrão de piso assimétrico que a Michelin aplicou pela primeira vez em 1965.
O que começou como uma solução para o motorista do Porsche 911 que fazia curvas muito fechadas se tornou o padrão para todos os pneus esportivos do mercado. Seis décadas depois, em um segmento de pneus mais competitivo do que nunca, o princípio XAS ainda é a base sobre a qual todos os fabricantes constroem seus produtos.
O Michelin XAS não apenas mudou o pneu — ele mudou a forma como os engenheiros pensam sobre aderência, água e a estrada. Essa é a definição de revolucionário.


















